segunda-feira, 7 de março de 2011

Psicanálise de "João e Maria"

  

   A história de João e Maria já começa apresentando-nos um conflito, uma vez que as duas crianças vivem em uma simples cabana, onde moram com o seu pai (um pobre lenhador) e uma madrasta cruel. O vilarejo em que eles moram estava passando por um período de extrema penúria e a família passa por um período em que o alimento é escasso. É nessa situação em que a madrasta sugere para o marido oferecer um pedaço de pão para as crianças e abandoná-las na floresta. No início o lenhador resiste a tão perverso plano, mas acaba cedendo aos insistentes pedidos de sua esposa.
   Mesmo de uma forma superficial, o conto nos coloca diante de uma desagradável verdade: a pobreza e a privação não melhora o caráter do ser humano, pelo contrário, muitas vezes o torna mais egoísta e menos sensível ao sofrimento alheio, como podemos observar pelo comportamento da madrasta.
   No aposento ao lado as crianças escutam toda a conversa e Maria, a mais pequena, desata a chorar. Esse trecho do conto demonstra uma ansiedade interna muito comum em crianças, que temem serem abandonadas pelos pais.
   De maneira implícita a história mostra a ineficácia de tentarmos resolver nossos problemas através da fuga e da regressão, já que João, ao invés de usar sua inteligência para estudar as marcações do caminho para encontrar o caminho de volta, lançou migalhas ao chão sem considerar que os passáros poderiam se alimentar desse pão. Provavelmente a ansiedade de morrer de fome fez com que João perdesse a habilidade de pensar claramente. O pão aqui representa o alimento de uma forma genérica.
   Este conto demonstra experiências internas diretamente ligadas à figura da mãe (representada como uma madrasta), enquanto o pai aparece como uma imagem apagada (como muitas vezes é visto pela criança durante seus primeiros anos de vida). A mãe é o centro, tanto nos aspectos benignos como nos ameaçadores.
   João e Maria acabam apresentando uma regressão oral ao encontrarem a casa feita com biscoitos de gengibre. Tomadas por uma intensa ansiedade não pensam na segurança que a casa poderiam lhe trazer como abrigo, mas devoram-na. Acredito que a casa construída com doces é uma imagem que todos guardamos de nossa infância, é um quadro incrivelmente atraente e tentador. A casa representa a voracidade oral (pode representar a mãe, que de fato alimenta a criança com seu corpo).
   Mas como o conto mostra, ceder a uma gula desenfreada traz a ameaça da destruição, representada pela bruxa (que apresenta inclinações canibalistas). Entretanto, através de um planejamento inteligente conseguem se livrar da terrível bruxa e pegar o seu tesouro, encontrando no final um pai arrependido e sozinho, já que a madrasta havia morrido de fome. O encontro ameaçador com a bruxa tornaria as crianças mais felizes (e realizadas) dali para frente... Estariam prontos para dependerem da própria inteligência para resolverem os problemas da vida.



REFERÊNCIAS

BETTELHEIM,B. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2003.

  

6 comentários:

isabelsantana2011 disse...

Raquel, como sempre maravilhoso...

Bjos.

keityrzs disse...

Oi Raquel! Parabéns por mais um texto brilhante.....

Realmente, o conto nos coloca mesmo diante de uma desagradável verdade. Quando diz que: “a pobreza e a privação não melhora o caráter do ser humano, pelo contrário, muitas vezes o torna mais egoísta e menos sensível ao sofrimento alheio”.

E essa é a dura realidade que muitos Países enfrentam.

Beijos,

Keity

Antonio Januário Santana disse...

Raquel, gosto muito de ler o seu blog.

Parabéns!

Beijos.

SOLANGE PROENÇA disse...

Muito bem... parabéns gostei muito! bjos

Robson da Silva Belo disse...

Tou adorando sua viagem aos contos infantis... Meus parabéns sempre pela competência em escrever e pelas boas sacadas nos temas.

Bjs!!!

Gabriel Valeriolete disse...

Em contos mais antigos não é uma madrasta e sim a própria mãe das crianças. A figura da madrasta foi usada pra amenizar o conto. Já li interpretações também em que a bruxa, devido à sua extrema pobreza e preocupação com o alimento (no caso, as crianças), talvez represente novamente a própria mãe. Isso explicaria porque a mãe ou madrasta deles morre misteriosamente após eles terem matado a bruxa. É que a mãe é a bruxa.