segunda-feira, 14 de maio de 2012

Delírio e Cinema


   O termo "delírio"é utilizado para representar uma anormalidade no conteúdo do pensamento. São falsas crenças que não podem ser explicadas com base nas origens culturais do paciente. Os delírios podem variar quanto ao seu conteúdo,  apresentando diversas modalidades: persecutórios, de ciúme, de pecado ou culpa, grandiosos, religiosos, somáticos, entre outros.
   Os delírios de caráter persecutório podem ser visualizados de forma bem elucidativa no filme "Uma mente brilhante". Nesta forma de delírio o indivíduo acredita que existem conspirações contra ele ou que é perseguido de alguma forma. As manifestações comuns incluem a crença de estar sendo seguido, de que sua correspondência está sendo lida, de que há escutas na casa, no escritório ou no telefone. No filme citado anteriormente, Russel Crowe interpreta o matemático John Forbes Nash Jr, profissional de sucesso em sua área de atuação. Entretanto, ao longo do filme o espectador é convidado a juntamente com John Nash diferenciar o que é real do que é imaginário, já que o personagem apresenta delírios persecutórios. O filme é baseado em fatos reais e remonta a trajetória deste matemático talentoso, diagnosticado com esquizofrenia, patologia em que os delírios de caráter persecutório são comuns.


REFERÊNCIAS

ANDREASEN, Nancy. Intodução à Psiquiatria. 4.ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Helena Kolody: o poder da palavra

   Hoje deixo no blog um vídeo sobre minha poetisa favorita, a paranaense Helena Kolody; conhecida pelo lirismo de seus textos, a simplicidade de suas palavras certamente desperta o que há de melhor em nós. Espero que a delicadeza de seus versos encante a todos, assim como me encantou quando li um de seus livros pela primeira vez.



"Muito briguei eu comigo,
tive raiva,
me insultei.
E, de incontido desgosto,
em meu próprio ombro chorei."
(Eu comigo - Helena Kolody)

"Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos."
(Poesia mínima - Helena Kolody)

sábado, 21 de abril de 2012

O mundo necessita de todos os tipos de mentes

   Dra Temple Grandin é uma designer de instalações de manuseamento de gado e docente de Ciência Animal na Universidade do Estado de Colorado. Ela é portadora de autismo altamente funcional, recebendo o diagnóstico de "dano cerebral" quando tinha apenas dois anos de idade. Relaciona o progresso que obteve aos seus dedicados e competentes professores do ensino primário. Ela e sua causa em defesa do autismo tornaram-se amplamente conhecidos quando o neurologista Oliver Sacks (http://belasartesmedicas.blogspot.com.br/2012/02/o-que-as-alucinacoes-revelam-sobre.htm) escreveu sobre como ela se sentia em relação aos neurotípicos no livro "Um antropólogo em Marte" .

Trechos do livro:
"E agora, finalmente, eu estava a caminho de Fort Collins, para encontrar Temple Grandin, uma das mais notáveis autistas: a despeito de seu autismo, ela é PhD em ciência animal, dá aulas na Colorado State University, e cuida de seus próprios negócios." 

"O quadro do 'autismo infantil clássico' é terrível. A maioria das pessoas (e de fato, dos médicos), se questionada sobre o autismo, faz uma imagem de uma criança profundamente incapacitada, com movimentos estereotipados, talvez batendo com a cabeça,com uma linguagem rudimentar, quase inacessível: uma criatura a quem o futuro não reserva muita coisa."

"... alguns jovens autistas, ao contrário das expectativas, podem conseguir desenvolver uma linguagem satisfatória, alcançar um mínimo de habilidades sociais e mesmo conquistas altamente intelectuais...".

   Em 2010, a HBO produziu um filme semibiográfico inspirado na cientista, intitulado Temple Grandin e estrelado por Claire Danes, recebendo 15 indicações ao Emmy e levando 5 premiações.



REFERÊNCIAS

SACKS, Oliver. Um Antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais. São Paulo: Companhia das Letras: 2006.


sábado, 7 de abril de 2012

Feliz Páscoa

Desejo uma feliz páscoa para todos vocês! Aproveitemos esta época do ano para relembrarmos que milagres acontecem diariamente, basta termos olhos atentos para percebermos como Deus é bondoso!



Com carinho,
Raquel L. Santana

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Abuso Sexual no Cinema


   A OMS considera o abuso sexual infantil um importante problema de saúde pública, sendo que sua real prevalência é desconhecida, já que muitas vítimas não revelam a violência. Observa-se uma rede de segredos, entre os envolvildos, familiares e até mesmo profissionais de saúde, formando um "muro de silêncio". Ninguém toca no assunto e acredita-se que assim ele deixa de existir.
  O abuso sexual na infância e na adolescência pode se apresentar de diversas maneiras, dificultando a possibilidade de denúncia pela vítima, já que nem sempre a violência física é evidente. Na maior parte das vezes a violência é praticada por pessoas ligadas diretamente às vítimas e sobre às quais exercem alguma forma de poder.
  Define-se abuso ou violência sexual na infância ou adolescência como a situação em que a criança ou adolescente é usada para satisfação sexual de um adulto ou adolescente mais velho, incluindo desde a prática de carícias, manipulação de genitália, mama, ou ânus, exploração sexual, voyeurismo, pornografia, exibicionismo, até o ato sexual, com ou sem penetração, sendo a violência sempre presumida em menores de 14 anos (ABRAPIA, 1997).
  Com frequência, vítimas do abuso sexual repetem o ciclo de vitimização, perpetuando o abuso sexual intergeracional com seus próprios filhos.
  O agressor muitas vezes usa da relação de confiança que já existe com a vítima (muitas vezes são familiares próximos) para se aproximar cada vez mais desta; inicialmente praticando atos de demonstração de afeto, fazendo com que a vítima sinta-se importante e amada, para posteriormente realizar uma forma de abuso explícita.

O abuso é progressivo; quanto mais medo, aversão ou resistência pela vítima, maior o prazer do agressor, maior a violência.

   Para o diagnóstico do abuso ser realizado, o médico generalista ou o pediatra deve considerá-lo uma possibilidade. O exame físico de toda criança e adolescente deve ser completo e a inspeção dos órgãos genitais/ânus deve sempre ser realizada.
   No atendimento inicial, a criança deve ter sua história escutada sem interrupções, realizando o acolhimento integral da vítima. Nos casos agudos, com menos de 72 horas do ocorrido, medidas legais devem ser tomadas, com realização de boletim de ocorrência em delegacia de polícia e laudo pericial no instituto médico legal.


Filme: Preciosa (Uma história de esperança)

  
A película dirigida por Lee Daniels e lançada em 2010, retrata a história de Claireece "Preciosa" Jones, uma adolescente de 16 anos, que sofre abuso sexual pelo pai e violência física/verbal pela mãe. Além disso, a personagem sofre preconceito por estar acima do peso, ser analfabeta e negra. Possui dois filhos, resultado do abuso exercido pelo pai. Entretanto, apesar de sua história traumática, a personagem encontra forças para se afirmar na sociedade através da educação.



REFERÊNCIAS

Pfeiffer L, Salvagni EP. Visão atual do abuso sexual na infância e adolescência. J Pediatr (Rio J). 2005;81(5 Supl):S197-S204.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Demência de Alzheimer



  O fenômeno de envelhecimento populacional já é visível em diversas sociedades, deixando de ser uma constatação das comunidades científicas e firmando-se como uma concepção do senso comum. Nas últimas décadas tal processo estendeu-se dos países desenvolvido para os países em desenvolvimento, tornando-se um fenômeno global.
 
  Paralelamente ao envelhecimento populacional, ocorre o aumento das doenças crônicas e degenerativas, características das fases mais tardias da vida de um ser humano. Nesse contexto, ocorre um crescimento do número de pessoas acometidas pela doença de Alzheimer, considerada por muitos a “epidemia do século XXI”.

  A doença de Alzheimer é a causa mais freqüente de demência nos idosos residentes em países ocidentais, configurando-se na mais importante de todas as doenças degenerativas, devido a sua significativa freqüência e a sua natureza devastadora.

  A descrição da doença e sua caracterização patológica foram feitas em 1907 pelo médico alemão Alois Alzheimer. Inicialmente, a doença era considerada uma demência progressiva que se instalava antes do período senil, sendo comum a utilização do termo “demência pré-senil”. Mais tarde, foram observadas, em idosos, lesões cerebrais idênticas àquelas verificadas nos casos de demência pré-senil, sendo que atualmente estes casos são chamados de “demência senil do tipo Alzheimer”.

Alois Alzheimer (1864-1915)

  A idade é o único fator de risco bem conhecido e aceito universalmente, sendo que a doença ocorre em cerca de 1% da população entre sessenta e cinco e sessenta e nove anos de idade, em 15-20% após os oitenta anos e em 40-50% após os noventa e cinco anos. A idade média de início da doença situa-se em torno dos oitenta anos de idade. Do total de casos de início precoce, aproximadamente 7% têm origem genética, com padrão de herança autossômica dominante.

  Os principais achados neuropatológicos encontrados na doença são a perda neuronal e a degeneração sináptica intensas, com a presença de duas lesões microscópicas características e indispensáveis para o diagnóstico, as placas senis ou neuríticas e os emaranhados neurofibrilares. Nas fases avançadas da doença, a colino acetiltransferase, enzima fundamental para a síntese de acetilcolina, encontra-se reduzida, contribuindo para a disfunção cognitiva observada nos pacientes.


  Macroscopicamente, observa-se redução do peso do encéfalo, além de atrofia cortical difusa, bilateral e simétrica, caracterizada por estreitamento dos giros e alargamento dos sulcos. Ocorre também uma redução do volume da substância branca cerebral, com preservação da cor e da textura. Como consequência da redução do volume da substância branca cerebral, observa-se dilatação dos ventrículos laterais e do terceiro ventrículo.

  A demência de Alzheimer apresenta três estágios evolutivos, contudo são diversas as formas de apresentação clínica e de progressão da doença. Possui instalação sutil e deterioração progressiva, sendo marcante a dificuldade em determinar a data de início da doença. A piora progressiva dos sintomas ocorre de forma gradual e contínua, normalmente em um período de oito a doze anos.

  Teoricamente, a fase inicial dura, em média, de dois a três anos, sendo marcada pelo comprometimento da memória recente ou de fixação. Nos estágios iniciais, pode ocorrer dificuldade no aprendizado de novas informações, perda de concentração, retraimento social e abandono de passatempos. Também pode ocorrer uma mudança no padrão habitual de comportamento, sendo conhecidos dois grupos de comportamento, um marcado pela apatia, passividade e desinteresse, enquanto o outro é caracterizado pela irritabilidade, egoísmo e intolerância.
"Retrato de uma idosa lendo", 1630-39 (óleo sobre tela), Gerrit Dou.
 (Na fase inicial da doença de Alzheimer o indivíduo pode apresentar dificuldades no aprendizado e retenção de informações).

   A fase intermediária, cuja duração varia entre dois e dez anos, é marcada pelo agravamento dos déficits de memória e pelo aparecimento de sintomas focais, como afasia, apraxia e agnosia. Além disso, podem surgir prejuízos em funções cognitivas, tais como julgamento, capacidade de cálculo e raciocínio abstrato. Sendo assim, todos esses déficits contribuem para a perda das habilidades para a realização de tarefas da vida diária, ocasionando um declínio tanto cognitivo como funcional. Em alguns casos, podem ainda surgir sinais extrapiramidais, com a alteração da postura e da marcha, além de rigidez generalizada da musculatura, causando lentidão e inadequação de todos os movimentos.
"No limiar da eternidade", 1890 (óleo sobre tela), Vincent Van Gogh.
(Na fase intermediária da demência de Alzheimer, a pessoa pode apresentar mudanças súbitas de humor).

  Na fase avançada, a memória remota já está bastante comprometida, ocorrendo alterações do ciclo sono-vigília, além de dificuldade para reconhecer faces e espaços familiares. As alterações de linguagem apresentam um declínio marcante, ficando evidentes as dificuldades para falar sentenças completas e compreender comandos simples. Além disso, os pacientes apresentam incapacidade para realizar cuidados pessoais, tornando-se totalmente dependentes. Invariavelmente, caminham para um estado de acamamento, sendo que o falecimento usualmente decorre de complicações da síndrome de imobilismo, como septicemia causada por pneumonia, infecção urinária e úlceras de decúbito. 
  Após anamnese detalhada e exame físico tradicional com ênfase no sistema neurológico, deve ser realizado o exame das funções cognitivas do paciente, utilizando-se de testes curtos, de fácil manuseio, de aplicação simples e apropriados para qualquer ambiente. Entretanto, deve-se salientar que todos os testes cognitivos apresentam limitações, além do que, fatores como idade e nível educacional podem interferir na sua efetividade.
  O Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) é um dos métodos de triagem mais empregados em todo o mundo, apresentando como vantagens sua fácil e rápida aplicação. No entanto, seu uso é limitado em pessoas com afasia, baixa acuidade visual e auditiva e distúrbios motores.

  É importante salientar que o diagnóstico definitivo de doença de Alzheimer, atualmente, só pode ser feito por exame histopatológico do tecido cerebral, sendo assim, trabalha-se usualmente com diagnóstico de probabilidade.

  Atualmente, não existem medicamentos capazes de interromper ou alterar o curso da doença de Alzheimer, nem sequer de impedir a sua eclosão. Os principais objetivos do tratamento são melhorar a qualidade de vida e maximizar o desempenho funcional dos pacientes, ao melhorar a cognição, retardar a evolução e tratar os sintomas.

  Os anticolinesterásicos ou inibidores da acetilcolinesterase, fármacos colinomiméticos, foram a primeira classe terapêutica a ser licenciada para tratamento da doença de Alzheimer, sendo particularmente indicados nas formas leve e moderada da doença. O tratamento com anticolinesterásicos deve ser iniciado logo após o estabelecimento do diagnóstico, observando-se um resultado geralmente modesto. Os efeitos colaterais costumam ser dose-dependentes, situação que pode ser prevenida por um incremento mais lento da medicação.

  Entre os inibidores da acetilcolinesterase, a tetraidroaminoacridina (tacrina) foi um dos primeiros fármacos a serem usados em larga escala, sendo o seu uso visivelmente reduzido após o surgimento de drogas de segunda geração. Alguns anticolinesterásicos disponíveis na atualidade incluem o donepezil, a rivastigmina e a galantamina.

  Recentemente, uma nova opção de tratamento foi aprovada para a doença de Alzheimer, a memantina, a primeira droga que pode ser utilizada nos estágios mais avançados da doença. Tal fármaco é um antagonista do receptor de glutamato, ressaltando-se que já era comercializada na Alemanha desde a década de oitenta para o tratamento de outras desordens neurológicas, não sendo, portanto, uma droga nova.

  No tratamento não-farmacológico, a abordagem do paciente pode ser feita através de técnicas de reabilitação cognitiva que incluem terapia da orientação para a realidade, técnicas de estimulação por meio da arte e de outras terapias ocupacionais, além de dança, exercícios e musicoterapia. Quando houver necessidade, o acompanhamento nutricional, fisioterápico e fonoaudiológico podem ser de grande utilidade. Além disso, o atendimento familiar é de grande valia para o sucesso na condução do tratamento.



Abaixo um poema de Cecília Meireles sobre memórias, lirismo e o passar do tempo:

 É Preciso Não Esquecer Nada
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.


É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.


O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.


O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


Cecília Meireles

Cecília Meireles


REFERÊNCIAS
BEAL, Flint. Doença de Alzheimer e outras demências. In: ISSELBACHER, Kurt (Ed.). Harrison: medicina interna. 13.ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 1995. p.2383-2389.
MACHADO, João Carlos Barbosa. Doença de Alzheimer. In: FREITAS, Elizabete Viana de et al. Tratado de geriatria e gerontologia. 2.ed. [S.l.]: Guanabara Koogan, 2006. p.260-279.
MACIEL JUNIOR, Jayme Antunes. Demências primárias e doença de Alzheimer. In: LOPES, Antonio Carlos (Ed.). Tratado de clínica médica. 1.ed. [S.l.]: Roca, 2006. v.2, p.2235-2253.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O que as alucinações revelam sobre nossas mentes

 
 Oliver Sacks é um neurologista e escritor de uma sensibilidade incomum, amplo conhecimento técnico e uma excelente didática na explicação de temas complexos até para estudiosos dessa área. Um de seus livros mais famosos chama-se "Tempo de Despertar" e foi readaptado para o cinema em 1990, sendo protagonizado por Robert de Niro e Robin Williams (aliás, um de meus filmes prediletos). Deixo aqui o link de uma de suas palestras.

http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/oliver_sacks_what_hallucination_reveals_about_our_minds.html